INTRODUÇÃO I / II / III / IV / V

Tive um sonho, um daqueles que é, por sua qualidade inerente e textura, obviamente muito raro e não produzido pela atividade do inconsciente, antes sendo um momento de algum estado supraconsciente bem definido. Ele fez-me experienciar (e ouvir) o seguinte: há dois níveis de percepção, um real, estado ‘desperto’ (metafisicamente falando), e outro que é o nosso estado de vigília comum, esse último sendo feito de interpretações secundárias e que funciona como ímã irresistível que nos leva a ‘dormir’ (metafisicamente falando; o estado comum de vigília é esse ‘sono’). Ao envelhecermos ficamos mais e mais condicionados a codificar nossa experiência através do filtro das interpretações secundárias; é por essa razão que as crianças, menos condicionadas pelas categorias desse plano secundário, são mais capazes do que nós em quebrar o ‘sono’ e ver a realidade originária que produz os estímulos externos que são mecanicamente codificados por nós e transformados em conceitos secundários e fantasiosos. Fui então instruído de que os conceitos matemáticos que aprendemos na escola são responsáveis por isso. O esforço para ‘despertar’ tem de ser enorme, pois tudo conspira para a inércia e para o esquecimento da realidade primária. Talvez a relevância desse sonho para a Obra é similar à relevância do Cristo ter dito que só entraremos no Reino de Deus se nos tornarmos como pequenas crianças.

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...esse sonho tomou-de de surpresa, com sua intensidade e status declaradamente pedagógico; anotei-o ainda num estado entre sono e vigília, tentando não mover-me na cama para não perder seu extremo frescor e para evitar adicionar algo a ele... minhas primeiras associações foram com a filosofia pós-kantiana, especialmente Schelling e Mendelssohn, e também a idéia de homo faber em Bergson... pensei também na Hypnerotomachia Poliphili de Colonna, mas com uma mudança, o acontecido sendo ‘a luta pelo conhecimento em um sonho’, embora Polia seja também um símbolo dessa Sophia, assim como a Beatriz de Dante. Com relação ao enigmático comentário sobre o modo como nos é ensinada a matemática, penso que pode ser duas coisas ao mesmo tempo: nossa dessacralização da matemática, e penso aqui no que Guénon escreveu sobre isso (e também nos esforços de Matila Ghyka em ressuscitar esse aspecto dessa ciência), e na possibilidade da matemática ser um emblema, no contexto desse sonho, da cristalização das categorias apriorísticas da sensibilidade descritas por Kant (é claro que Kant as pensava inatas e não aprendidas, mas alguns pós-kantianos tinham opinião diversa, e Piaget fez pesquisas muito interessantes nesse sentido...).

 
 
 

Com relação a ser necessário ou não um mestre para disciplinas tradicionais, passo a palavra para René Guénon, talvez o grande mestre esotérico ocidental que o século XX nos deixou. Nota bene: não sou guénoniano, tenho inúmeras ressalvas ao pensamento totalizante desse autor, aliás a qualquer tipo de totalização; sua posição com relação ao budismo foi demasiado míope, sua crítica à democracia e ao 'mundo moderno' em geral foi simplista, maniqueísta. Mas ele teve grandes insights em relação ao significado da Iniciação tradicional...

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Claro, a mágica é o próprio cotidiano... Há uma estória zen de que o discípulo de um mestre shingon vai se gabar das magias de seu mestre para um discípulo de um mestre zen, e lhe pergunta:

"E o seu mestre, o que faz?"

O outro responde: "Meu mestre faz uma mágica incrivelmente maior".

"Qual é essa mágica?"

"Sua mágica é não fazer nada disso! Ela consiste em comer quando tem fome, e dormir quando tem sono."


Com efeito, Heidegger, citando Leibniz, escreveu que o mistério real reside no fato que o mundo existe, e não o vazio.

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O ideal, na minha opinião, é ser cético e ao mesmo tempo não, é ser
um blend, um mistura, aliando um saudável espírito de pesquisa em
assuntos nebulosos, mas ao mesmo tempo percebendo o quanto há de
transcendente em nosso prosaico dia-a-dia. Mas é fundamental fugir de toda tentação sistêmica, desse nosso eterno desejo de encaixar tudo numa grade conceitual consistente... pois esse é um caminho que nos levará inexoravelmente ao erro, é um caminho gerado pela nossa ansiedade narcísica de tudo explicar conceitualmente, verdadeiro veneno no caminho espiritual. Evite as grandes sínteses, e não tenha medo de ser contraditório ou inconsistente. Quem te disse que o mundo é compreensível ou consistente? Vivencie o mundo, não se preocupe em compreendê-lo com a cabeça. É muito mais importante você tentar entender (e seguir) o que o mundo parece estar pedindo de você num dado momento, o que ele está pedindo que você FAÇA.


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O grande ou talvez único problema existencial: nossa finitude. A resposta mais sábia é: não sei. Não sei se sobrevivo à morte, ou o quê em mim sobreviveria a ela, não sei se existe alma, e se ela é independente do corpo. Perguntavam muito ao Buda sobre isso, reencarnação, a natureza da matéria, do espírito, etc. Sua resposta, invariavelmente: Nada disso ajuda no Caminho, esqueçam essas questões e apliquem-se em erradicar o sofrimento, cortando sua raiz que é o apego. Buda foi o primeiro pensador existencialista de que se tem notícia!

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É fundamental sabermos escolher a senda iniciática mais apropriada ao nosso temperamento e personalidade, e estamos num momento histórico particularmente propício, pois hoje as opções são mais variadas no Ocidente graças ao intercâmbio religioso. As vias contemplativas de teor devocional, típicas das religiões monoteístas, estão bem representadas tanto no monasticismo cristão quanto no esoterismo islâmico. Certas vias físicas encontram-se expostas na Yoga indiana e na alquimia ocidental. Por fim, uma via contemplativa de caráter existencial nos é oferecida através da prática zen-budista. O fenômeno da globalização foi, nesse campo, extremamente benéfico.

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A maiêutica socrática é a base da verdadeira Filosofia, pois ela faz a atividade filosófica cumprir seu papel originário, que é o de ser uma propedêutica ou vestíbulo às iniciações esotéricas. É um papel sagrado, o que aprendemos na faculdade é uma pálida sombra disso, algo decaído, e decaído na exata medida do triste tempo (ou yuga) em que vivemos...

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Há uma estória engraçada sobre os temperamentos animais... Trata-se da estória do cão e do gato. Quando damos comida e atenção ao cão, este pensa: "Essa pessoa me trata tão bem, é tão atenciosa... Ela deve ser um ser divino, um deus!" Quando damos comida e atenção ao gato, este pensa: "Essa pessoa me trata tão bem, é tão atenciosa.... Eu devo ser um ser divino, um deus!"

Nesses dois tipos de resposta à doação divide-se a humanidade, ora valorizando o doador, ora o receptor... Não percebemos como nada disso importa, mas sim o que é doado, a transmissão, esse fluxo que perpassa os dois indivíduos envolvidos, desde que o receptor esteja preparado, seja digno dessa transmissão. Mas as razões da eleição de um certo receptor também nos escapam, e somos induzidos, durante todo esse processo de transmissão, por uma força maior da qual somos os instrumentos mais ou menos conscientes... Donde a importância de um certo grau de anonimato na transmissão de uma Iniciação tradicional. Talvez nunca saberemos a razão de termos sido escolhidos, num dado momento cósmico, para sermos o doador ou o receptor de uma dada Iniciação.


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A Verdade não existe. O que existe é a realização mais ou menos plena do Vazio. Esse Vazio é percebido pela mente como Ignorância (pois é quebrado seu mecanicismo), embora seja intuído e realizado de maneira concreta e positiva pelo "coração". Isso não significa que a ignorância do tolo e a do sábio sejam idênticas. Pelo contrário, a ignorância do sábio é fruto de um longo trabalho sobre si, a do tolo é apenas escuridão. O resultado pode ser similar, mas as causas são profundamente diferentes.

Mas essa é apenas uma compreensão. Vivenciando o descrito acima, perceber-se-á que essa também não é a compreensão correta. Não há compreensão correta.

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Tenho a convicção de que na hermenêutica simbólica/pictórica não faz a menor diferença no final qual era a intenção ou mensagem original, o fundamental é que o objeto seja apto a receber transferências simbólicas interessantes da parte de um observador qualificado... Na minha opinião tal é o caso de muitas das famosas análises de baixos-relevos feitas por Fulcanelli. Isso não deve diminuir o valor intrínseco da hermenêutica pictórica feita por indivíduos altamente qualificados, como bem mostra a obra de um adepto da estatura de Fulcanelli. Entendo por indivíduo qualificado uma pessoa que esteja bem avançada numa espiritualidade tradicional específica... Para tais pessoas, e para nós em um grau menor, o mundo é percebido como espelho da alma, e vice-versa, pois parecem comungar agora da Anima Mundi, que é onde escondem-se as intenções simbólicas por trás dos fenômenos. Ou, se afinal tais indivíduos não possuem essa habilidade mística, pelo menos todos sairemos ganhando com o conhecimento que será por eles exposto através do suporte desses símbolos pictóricos...

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O que é um Mestre? É alguém que, através de sangue, suor e lágrimas, chegou à maestria de um dado assunto, arte ou ciência. Ele não te pedirá menos que isso, se quiseres aprender a sua arte. Ele não é especialmente agradável ou de trato fácil, é uma pessoa como as outras, com defeitos e qualidades... Os falsos mestres são, pelo contrário, melífluos, angelicais, conspicuamente virtuosos ou de aspecto "transcendente"... Para teu próprio bem, é preciso que pares de projetar nos outros tuas fantasias sobre como deveria ser uma pessoa "espiritual", sobre como seria a sua personalidade, aparência ou modos... Caso contrário, serás sempre uma presa fácil.

Um Mestre poderá te ensinar um fazer tradicional, e não teorias. Desconfie de teorias. Só um fazer tradicional é capaz de efetuar uma mudança qualitativa real. Esse é outro critério para que saibas distinguir um Mestre de um falso mestre.

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Assim como o Zen trabalha a postura corporal, a Alquimia trabalha a matéria para alcançar uma elevação ou depuramento espiritual, pois o espírito e o corpo são uma coisa só, são inseparáveis na nossa existência concreta e atual. Esses caminhos passam pelo corpo, e o próprio budismo é enfático ao negar a distinção entre corpo e alma. Se essa negação é apenas pragmática, não sabemos.

O corpo é a exteriorização da alma, são camadas concêntricas de uma coisa só. Daí provém, entre outras coisas, nossa capacidade em intuir a alma de alguém pela observação de sua presença física. Para alguns, o ponto central dessas camadas circulares é o que foi chamado de Atman no hinduísmo, é a centelha divina que talvez seja a única coisa a sobreviver à morte. Mas não dês muita importância a isso, pois é inverificável em nosso presente estado. O Atman é muito provavelmente quimérico, uma palavra ou conceito destinados a tapar um imenso e doloroso buraco emocional, que é nossa ânsia de uma imortalidade individual ou pessoal. Essa ânsia pode muito bem ser uma extensão de nosso instinto de sobrevivência... Quebrando esse paradigma bastante primário, que tal sermos a "imortalidade" do Mundo, vivendo aqui, agora e na própria morte? Consegues abraçar este radical existencialismo religioso?

Aceite plenamente tua morte pelo que ela para todos os efeitos parece ser: teu fim. Mesmo que ela porventura não seja... Ao abraçar desse modo tua morte, estarás finalmente te abrindo à verdadeira espiritualidade, espiritualidade que não é mais compensatória, interesseira, escapista ou medrosa.

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O Apocalipse. É inconcebivelmente inano o interesse escatológico. O que não se percebe é que a eventualidade apocalíptica em nada afeta existencialmente o iniciado. O suposto final dos tempos não deixa de ser mais uma forma de tempo, e não Eternidade. A Eternidade está presente aqui e agora, é a infinita vertical que cruza perpendicularmente o ponto presente situado na horizontal do tempo cronológico. Viver plenamente o momento presente é viver essa Eternidade. Esse é um dos sentidos profundos de práticas meditativas como o zazen. Tanto faz se o mundo acabar, esse mundo sempre acaba, de todo modo, na morte de cada um de nós.

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© Suetam