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Tive
um sonho, um daqueles que é, por sua qualidade inerente
e textura, obviamente muito raro e não produzido pela
atividade do inconsciente, antes sendo um momento de algum
estado supraconsciente bem definido. Ele fez-me experienciar
(e ouvir) o seguinte: há dois níveis de percepção,
um real, estado desperto (metafisicamente falando),
e outro que é o nosso estado de vigília comum,
esse último sendo feito de interpretações
secundárias e que funciona como ímã irresistível
que nos leva a dormir (metafisicamente falando;
o estado comum de vigília é esse sono).
Ao envelhecermos ficamos mais e mais condicionados a codificar
nossa experiência através do filtro das interpretações
secundárias; é por essa razão que as
crianças, menos condicionadas pelas categorias desse
plano secundário, são mais capazes do que nós
em quebrar o sono e ver a realidade originária
que produz os estímulos externos que são mecanicamente
codificados por nós e transformados em conceitos secundários
e fantasiosos. Fui então instruído de que os
conceitos matemáticos que aprendemos na escola são
responsáveis por isso. O esforço para despertar
tem de ser enorme, pois tudo conspira para a inércia
e para o esquecimento da realidade primária. Talvez
a relevância desse sonho para a Obra é similar
à relevância do Cristo ter dito que só
entraremos no Reino de Deus se nos tornarmos como pequenas
crianças.

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...esse
sonho tomou-de de surpresa, com sua intensidade e status declaradamente
pedagógico; anotei-o ainda num estado entre sono e
vigília, tentando não mover-me na cama para
não perder seu extremo frescor e para evitar adicionar
algo a ele... minhas primeiras associações foram
com a filosofia pós-kantiana, especialmente Schelling
e Mendelssohn, e também a idéia de homo faber
em Bergson... pensei também na Hypnerotomachia Poliphili
de Colonna, mas com uma mudança, o acontecido sendo
a luta pelo conhecimento em um sonho, embora Polia
seja também um símbolo dessa Sophia, assim como
a Beatriz de Dante. Com relação ao enigmático
comentário sobre o modo como nos é ensinada
a matemática, penso que pode ser duas coisas ao mesmo
tempo: nossa dessacralização da matemática,
e penso aqui no que Guénon escreveu sobre isso (e também
nos esforços de Matila Ghyka em ressuscitar esse aspecto
dessa ciência), e na possibilidade da matemática
ser um emblema, no contexto desse sonho, da cristalização
das categorias apriorísticas da sensibilidade descritas
por Kant (é claro que Kant as pensava inatas e não
aprendidas, mas alguns pós-kantianos tinham opinião
diversa, e Piaget fez pesquisas muito interessantes nesse
sentido...).

Com
relação a ser necessário ou não
um mestre para disciplinas tradicionais, passo a palavra para
René Guénon, talvez o grande mestre esotérico
ocidental que o século XX nos deixou. Nota bene:
não sou guénoniano, tenho inúmeras ressalvas
ao pensamento totalizante desse autor, aliás a qualquer
tipo de totalização; sua posição
com relação ao budismo foi demasiado míope,
sua crítica à democracia e ao 'mundo moderno'
em geral foi simplista, maniqueísta. Mas ele teve grandes
insights em relação ao significado da Iniciação
tradicional...

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Claro,
a mágica é o próprio cotidiano... Há
uma estória zen de que o discípulo de um mestre
shingon vai se gabar das magias de seu mestre para um discípulo
de um mestre zen, e lhe pergunta:
"E
o seu mestre, o que faz?"
O outro responde: "Meu mestre faz uma mágica incrivelmente
maior".
"Qual é essa mágica?"
"Sua mágica é não fazer nada disso!
Ela consiste em comer quando tem fome, e dormir quando tem
sono."
Com
efeito, Heidegger, citando Leibniz, escreveu que o mistério
real reside no fato que o mundo existe, e não o vazio.

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O
ideal, na minha opinião, é ser cético
e ao mesmo tempo não, é ser
um blend, um mistura, aliando um saudável espírito
de pesquisa em
assuntos nebulosos, mas ao mesmo tempo percebendo o quanto
há de
transcendente em nosso prosaico dia-a-dia. Mas é fundamental
fugir de toda tentação sistêmica, desse
nosso eterno desejo de encaixar tudo numa grade conceitual
consistente... pois esse é um caminho que nos levará
inexoravelmente ao erro, é um caminho gerado pela nossa
ansiedade narcísica de tudo explicar conceitualmente,
verdadeiro veneno no caminho espiritual. Evite as grandes
sínteses, e não tenha medo de ser contraditório
ou inconsistente. Quem te disse que o mundo é compreensível
ou consistente? Vivencie o mundo, não se preocupe em
compreendê-lo com a cabeça. É muito mais
importante você tentar entender (e seguir) o que o mundo
parece estar pedindo de você num dado momento, o que
ele está pedindo que você FAÇA.
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O
grande ou talvez único problema existencial:
nossa finitude. A resposta mais sábia é:
não sei. Não sei se sobrevivo à
morte, ou o quê em mim sobreviveria a ela, não
sei se existe alma, e se ela é independente do
corpo. Perguntavam muito ao Buda sobre isso, reencarnação,
a natureza da matéria, do espírito, etc.
Sua resposta, invariavelmente: Nada disso ajuda no Caminho,
esqueçam essas questões e apliquem-se
em erradicar o sofrimento, cortando sua raiz que é
o apego. Buda foi o primeiro pensador existencialista
de que se tem notícia!
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É
fundamental sabermos escolher a senda iniciática mais
apropriada ao nosso temperamento e personalidade, e estamos
num momento histórico particularmente propício,
pois hoje as opções são mais variadas
no Ocidente graças ao intercâmbio religioso.
As vias contemplativas de teor devocional, típicas
das religiões monoteístas, estão bem
representadas tanto no monasticismo cristão quanto
no esoterismo islâmico. Certas vias físicas encontram-se
expostas na Yoga indiana e na alquimia ocidental. Por fim,
uma via contemplativa de caráter existencial nos é
oferecida através da prática zen-budista. O
fenômeno da globalização foi, nesse campo,
extremamente benéfico.
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A
maiêutica socrática é a base da verdadeira
Filosofia, pois ela faz a atividade filosófica cumprir
seu papel originário, que é o de ser uma propedêutica
ou vestíbulo às iniciações esotéricas.
É um papel sagrado, o que aprendemos na faculdade é
uma pálida sombra disso, algo decaído, e decaído
na exata medida do triste tempo (ou yuga) em que vivemos...
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Há
uma estória engraçada sobre os temperamentos
animais... Trata-se da estória do cão e do gato.
Quando damos comida e atenção ao cão,
este pensa: "Essa pessoa me trata tão bem, é
tão atenciosa... Ela deve ser um ser divino, um deus!"
Quando damos comida e atenção ao gato, este
pensa: "Essa pessoa me trata tão bem, é
tão atenciosa.... Eu devo ser um ser divino, um deus!"
Nesses dois tipos de resposta à doação
divide-se a humanidade, ora valorizando o doador, ora o receptor...
Não percebemos como nada disso importa, mas sim o que
é doado, a transmissão, esse fluxo que perpassa
os dois indivíduos envolvidos, desde que o receptor
esteja preparado, seja digno dessa transmissão. Mas
as razões da eleição de um certo receptor
também nos escapam, e somos induzidos, durante todo
esse processo de transmissão, por uma força
maior da qual somos os instrumentos mais ou menos conscientes...
Donde a importância de um certo grau de anonimato na
transmissão de uma Iniciação tradicional.
Talvez nunca saberemos a razão de termos sido escolhidos,
num dado momento cósmico, para sermos o doador ou o
receptor de uma dada Iniciação.
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A Verdade não existe. O que existe é a realização
mais ou menos plena do Vazio. Esse Vazio é percebido
pela mente como Ignorância (pois é quebrado
seu mecanicismo), embora seja intuído e realizado
de maneira concreta e positiva pelo "coração".
Isso não significa que a ignorância do tolo
e a do sábio sejam idênticas. Pelo contrário,
a ignorância do sábio é fruto de um
longo trabalho sobre si, a do tolo é apenas escuridão.
O resultado pode ser similar, mas as causas são profundamente
diferentes.
Mas
essa é apenas uma compreensão. Vivenciando o
descrito acima, perceber-se-á que essa também
não é a compreensão correta. Não
há compreensão correta.
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Tenho
a convicção de que na hermenêutica simbólica/pictórica
não faz a menor diferença no final qual era
a intenção ou mensagem original, o fundamental
é que o objeto seja apto a receber transferências
simbólicas interessantes da parte de um observador
qualificado... Na minha opinião tal é o caso
de muitas das famosas análises de baixos-relevos feitas
por Fulcanelli. Isso não deve diminuir o valor intrínseco
da hermenêutica pictórica feita por indivíduos
altamente qualificados, como bem mostra a obra de um adepto
da estatura de Fulcanelli. Entendo por indivíduo qualificado
uma pessoa que esteja bem avançada numa espiritualidade
tradicional específica... Para tais pessoas, e para
nós em um grau menor, o mundo é percebido como
espelho da alma, e vice-versa, pois parecem comungar agora
da Anima Mundi, que é onde escondem-se as intenções
simbólicas por trás dos fenômenos. Ou,
se afinal tais indivíduos não possuem essa habilidade
mística, pelo menos todos sairemos ganhando com o conhecimento
que será por eles exposto através do suporte
desses símbolos pictóricos...
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O que é um Mestre? É alguém que, através
de sangue, suor e lágrimas, chegou à maestria
de um dado assunto, arte ou ciência. Ele não
te pedirá menos que isso, se quiseres aprender a sua
arte. Ele não é especialmente agradável
ou de trato fácil, é uma pessoa como as outras,
com defeitos e qualidades... Os falsos mestres são,
pelo contrário, melífluos, angelicais, conspicuamente
virtuosos ou de aspecto "transcendente"... Para
teu próprio bem, é preciso que pares de projetar
nos outros tuas fantasias sobre como deveria ser uma pessoa
"espiritual", sobre como seria a sua personalidade,
aparência ou modos... Caso contrário, serás
sempre uma presa fácil.
Um
Mestre poderá te ensinar um fazer tradicional,
e não teorias. Desconfie de teorias. Só um fazer
tradicional é capaz de efetuar uma mudança
qualitativa real. Esse é outro critério para
que saibas distinguir um Mestre de um falso mestre.
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Assim como o Zen trabalha a postura corporal, a Alquimia trabalha
a matéria para alcançar uma elevação
ou depuramento espiritual, pois o espírito e o corpo
são uma coisa só, são inseparáveis
na nossa existência concreta e atual. Esses caminhos
passam pelo corpo, e o próprio budismo é enfático
ao negar a distinção entre corpo e alma. Se
essa negação é apenas pragmática,
não sabemos.
O
corpo é a exteriorização da alma, são
camadas concêntricas de uma coisa só. Daí
provém, entre outras coisas, nossa capacidade em intuir
a alma de alguém pela observação de sua
presença física. Para alguns, o ponto central
dessas camadas circulares é o que foi chamado de Atman
no hinduísmo, é a centelha divina que talvez
seja a única coisa a sobreviver à morte. Mas
não dês muita importância a isso, pois
é inverificável em nosso presente estado. O
Atman é muito provavelmente quimérico,
uma palavra ou conceito destinados a tapar um imenso e doloroso
buraco emocional, que é nossa ânsia de uma imortalidade
individual ou pessoal. Essa ânsia pode
muito bem ser uma extensão de nosso instinto de sobrevivência...
Quebrando esse paradigma bastante primário, que
tal sermos a "imortalidade" do Mundo, vivendo aqui,
agora e na própria morte? Consegues abraçar
este radical existencialismo religioso?
Aceite
plenamente tua morte pelo que ela para todos os efeitos parece
ser: teu fim. Mesmo que ela porventura não seja...
Ao abraçar desse modo tua morte, estarás finalmente
te abrindo à verdadeira espiritualidade, espiritualidade
que não é mais compensatória, interesseira,
escapista ou medrosa.
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O
Apocalipse. É inconcebivelmente inano o interesse escatológico.
O que não se percebe é que a eventualidade apocalíptica
em nada afeta existencialmente o iniciado. O suposto final
dos tempos não deixa de ser mais uma forma de tempo,
e não Eternidade. A Eternidade está presente
aqui e agora, é a infinita vertical que cruza perpendicularmente
o ponto presente situado na horizontal do tempo cronológico.
Viver plenamente o momento presente é viver essa Eternidade.
Esse é um dos sentidos profundos de práticas
meditativas como o zazen. Tanto faz se o mundo acabar,
esse mundo sempre acaba, de todo modo, na morte de cada um
de nós.
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©
Suetam
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