|
RENÉ
GUÉNON
ARTIGOS | LIVROS SUGERIDOS

O CONCEITO DE INICIAÇÃO
EM RENÉ GUÉNON
|
|
René
Guénon baseou-se muito na noção
sufi de iniciação, que é chamada
de bayat, para elaborar seu conceito de Iniciação.
Esse bayat ou juramento é feito para se
receber a báraka (graça eficiente)
que vem do Profeta Muhammad (s.a.w.s.) através
de uma dada silsilah ou cadeia de transmissão.
Essa cadeia é constituída por vários
mestres certificados como tais, às vezes míticos,
geralmente históricos. Como nas cadeias de transmissão
dessa Graça Eficiente pertencentes a outras correntes
esotéricas e religiosas, é comum no sufismo
suprir uma lacuna na transmissão histórica
com um "coringa", um mestre mítico/místico
(no caso islâmico, muitas vezes o Khidr).
Está em jogo uma questão de poder, pois
a instituição deve certificar se alguém
é ou não um mestre legítimo. Se
o pedigree possuir lacunas, será necessário
criar um novo pedigree.
|
Para
Guénon, essa Graça eficiente é uma centelha
divina, não-humana, de origem transcendente, que é
necessária para que o trabalho iniciático individual
possa gerar fruto. Ou seja, há uma iniciação
formal, ritual, que tem caráter de potência,
de virtualidade. Considerando-se o ser humano atual como irremediavelmente
decaído (e para Guénon é importante o
mito indo-europeu das quatro idades do mundo, mito presente
tanto em Platão quanto nos textos védicos),
é necessário esse "impulso" da iniciação
virtual pois ela transmite algo impalpável porém
real. Essa centelha que é transmitida (traditio/transmissio)
deverá então propiciar, se adequadamente nutrida,
a iniciação real, que é por sua vez algo
arduamente trabalhado pelo iniciado, é mérito
seu. Num sentido real, portanto, é o indivíduo
que inicia-se a si mesmo, esse é um trabalho seu, mas
ele necessitará de uma ajuda. Essa ajuda é transcendente
na origem mas imanente à cadeia iniciática e
aos rituais destinados a esse fim.
Porquê usei o termo Graça Eficiente? A razão
é simples: essa problemática institucional é
também comum nas correntes religiosas ocidentais. Foi
o problema levantado pelo Père Arnault, por Pascal,
em suma, pelo movimento Jansenista no século XVII:
a questão da essência e da importância
dos sacramentos católicos.
Foi também a questão de se saber, à época
de Felipe o Belo (o mesmo que destruiu a Ordem do Templo),
quem era o Papa legítimo, o de Roma ou o de Avignon...
Esse assunto é vital no que tange às instituições,
pois regula a legitimidade do poder exercido por elas. Sua
resolução é crucial para a sobrevivência,
legitimidade e continuidade das mesmas.
Mas o quê isso tem a ver com a prática de um
caminho espiritual? Muito pouco, no meu entender. Então,
é um mestre necessário ou não?
É fundamental. Mas por outras razões, razões
essas bem mais simples e pedestres. Aprender uma prática
espiritual assemelha-se ao aprendizado de uma arte tradicional,
é um artesanato. Se fôssemos um sapateiro, como
aprenderíamos a fazer sapatos? Tradicionalmente cada
corporação possui seus segredos, não
serve apenas ler um livro do gênero Sapataria para
Dummies. É a prática tradicional da sapataria
que importa aqui. Onde aprender? Ora, procurando um mestre-sapateiro
que nos aceite como aprendiz. Inicialmente imitaremos, macaquearemos
o mestre, e com os anos entenderemos as razões ocultas,
sutis, na arte de como esse mestre faz seus sapatos, e então
seremos talvez alçados à condição
de companheiros, pois ele verificou que os nossos sapatos
estão bons, estão melhorando. Com o passar dos
anos nossa técnica transmutou-se em arte, nossos sapatos
são nossos, exalam nosso aroma, nosso espírito.
Tornamo-nos então Mestres, e passamos a ter a permissão
(tácita ou explícita) da corporação
para que iniciemos e treinemos novos aprendizes. E assim a
arte da sapataria continua através dos tempos, somos
integrados nessa vasta corrente, somos mais um anel.
voltar

RENÉ
GUÉNON, UMA INTRODUÇÃO
|
|
Propor-se a escrever sobre René Guénon é
quase um contrasenso, pois sua obra tende a colocar o
leitor em um terrível dilema: tentar vê-la
de um ponto de vista externo, perspectiva amplamente condenada
pelo autor, ou tornar-se inevitavelmente um prócer,
um discípulo, e avaliar esse mesmo exterior através
da perpectiva que sua obra nos dá. São difíceis,
senão impossíveis, as soluções
de compromisso. Seu pensamento era denso, sistemático,
totalizante, e respondia metodicamente a possíveis
críticas, pondo-se prontamente em uma posição
inatacável. Para Guénon, sua obra era apenas
(e esse apenas era certamente de uma imensa megalomania)
a traditio/transmissio da philosophia perennis,
da prístina e una metafísica que originou
todas as grandes religiões. Ele jamais usava o
pronome pessoal, e agia como uma sibila enviada pelo Logos
para esses tempos de escuridão espiritual, para
esse "fim de ciclo" (no sentido platônico
e védico) em que vivemos. |
Temos,
parece-me, duas opções em relação
a Guénon. A primeira e mais fácil seria simplesmente
ignorá-lo e enviar seus escritos ao merecido limbo
daquilo que poderíamos chamar de "não-saber",
pseudo-saber, ou simulacro de saber.
Uma
outra opção, que na minha opinião é
a mais interessante, seria a de adentrar seu sistema, levá-lo
por um momento a sério, e ao final julgar por nós
mesmos se ganhamos algo no processo. Como Guénon vê
o mundo? O que o irrita tanto na modernidade? Quais as razões
de seu não-conformismo? O que ele parece estar criticando,
e o que propõe em troca? Em suma, entremos dentro do
universo mental do autor e tentemos compreendê-lo. E
façamos isso à maneira de um psiquiatra curioso,
evitando classificações fáceis demais
e extrínsecas ao próprio autor.
Guénon
sempre foi um homem cerebral, frágil, ávido
do ocultismo fin-de-siècle que permeava as facções
maçônicas ligadas a Papus (Gérard Encausse),
Stanislas de Guaïta, Oswald Wirth. Fez uma carreira extremamente
rápida nesses meios, chegando a ser ordenado 'bispo'
de uma ressurreta Igreja Gnóstica (seu nome episcopal
era Palingenius, e supostamente era uma reencarnação
de outro antigo hierofante gnóstico do mesmo nome).
Teve verdadeiro frenesi em acumular iniciações
maçônicas, rosacruzes, martinistas, taoistas,
sufistas, vedânticas. Nesse primeiro momento, Guénon
poderia ser classificado como um típico cercleux
de grupelhos ocultistas parisienses. No entanto, nosso autor
passará o resto de sua vida a criticar violentamente,
ou às vezes a simplesmente depurar, o nebuloso pensamento
desse meio. Como Santo Agostinho, será um doutrinador
tão rígido quanto foi intenso seu envolvimento
anterior (no caso de Agostinho, com os maniqueus). Sua obra
posterior ganhará muito sabor em função
desse passado ocultista, que lhe fornecerá muito material
de reflexão (e crítica, evidentemente). No final
de sua vida, no Cairo, dedica-se especialmente a uma ressacralização
da maçonaria... Não teria elementos para tal
projeto se não tivesse sido muito cedo maçom,
e maçom alçado a graus muito altos pelo próprio
Papus.
O
pensamento de Guénon, além de ser um sistema
fechado (como qualquer filósofo ou pensador paradigmático,
Freud, Marx, Nietzsche, e outros menores mas não menos
monomaníacos), propõe-se a ser uma propedêutica,
uma retificação das categorias mentais do leitor
para que o próximo passo possa ser dado, que é
a verdadeira iniciação. Essa iniciação
está fora da alçada do autor, no entanto. Compete
às organizações tradicionais por ele
elencadas: sociedades secretas taoístas, vedantinas,
budistas, cristãs-ortodoxas, islâmicas, etc.
Ele é como João Batista, anuncia e prepara.
É
fascinante ler Guénon. O texto passa uma atemporalidade,
uma impessoalidade, como se o autor tivesse sido incumbido
da penosa tarefa de nos elucidar antes do "fim deste
mundo tal como o concebemos" (a expressão é
dele). É sedutor ler Guénon, seu estilo suscita
a criança frágil em nós, aquela que quer
que pensem por ela, que lhe dêem certezas, bússolas,
que lhe segurem a mão. Como diria Pascal, precisamos
de um ponto fixo, de um porto seguro. Paradoxalmente, o texto
guénoniano é exigente com o leitor, não
é de fácil acesso, é rigoroso na ordem
das razões, chega a ser escolástico, tomista,
cheio de distinções, poréns, um espírito
aracnídeo. Kant também o é, verdade seja
dita.
Guénon
não gostava nada das apropriações políticas
que sua obra obteve, notadamente na França e Espanha
por monarquistas, e na Itália por pensadores fascistas
como Julius Evola. Não lhe interessava a política
tal como a entendemos corriqueiramente. Também não
lhe interessava a erudição, a referência
a fontes, o academicismo; suas notas de rodapé referem-se
indefectivelmente a outras partes de sua obra, a outros livros
seus. Seu alvo como público-leitor parece ter sido
uma certa elite intelectual/espiritual situada dentro das
diversas formas religiosas tradicionais e que poderiam compreendê-lo,
ele Guénon, 'por dentro', compreender intuitivamente
e espiritualmente sua mensagem revivificadora para suas respectivas
tradições. Pois a doutrina por ele transmitida
seria nada mais nada menos que a metafísica matriz
de todas essas tradições, seria a tradição-mãe,
o tronco primordial.
| A
obra escrita de Guénon tem algumas repartições,
que dependeram tanto das ocasiões históricas
que as suscitaram quanto de seu intento pedagógico,
e finalmente de sua função orgânica
dentro do corpus guénoniano. Grosso modo,
Guénon começa sua carreira literária
denunciando a "falsa espiritualidade" revestida
ou de cientificismo (O Erro espírita, 1923)
ou produto de pura má-fé e charlatanismo
(O Teosofismo, história de uma pseudo-religião,
1921, 1925). Até hoje pensa-se que faltou um volume
sobre a pseudo-maçonaria ocultista de Papus, mas
afinal o autor havia sido maçom, e há coisas
que se pensam mas não se escrevem. |
|
Seus
livros seguintes tratam de simbologia, já entrevendo-se
aspectos doutrinais (O Rei do mundo, 1927, O esoterismo
de Dante, 1925). Finalmente escreve sua grande trilogia
metafísica, que é como que o núcleo de
sua obra: O homem e seu devir segundo o vedanta, O
simbolismo da cruz, e Os estados múltiplos do
Ser (respectivamente 1925, 1931, 1932).
Por
fim, após a exposição dos erros alheios
e a apresentação do que seria a verdadeira metafísica,
Guénon escreve uma obra volumosa porém alusiva
relativa aos aspectos práticos da iniciação,
Apontamentos sobre a Iniciação (1946);
alusiva em dois sentidos, um derivado do fato que o autor
delega às várias tradições iniciáticas
o papel de levar a cabo efetivamente essa práxis;
outro devido simplesmente ao caráter secreto das iniciações.
Além
desse esqueleto da obra guénoniana, há outras
peças do autor, de modo algum desprovidas de interesse,
e que tratam de criticar a modernidade em todas as suas facetas
(O Reino da quantidade, A Crise do mundo moderno, 1945
e 1927 respectivamente). Serão essas obras 'menores'
as que mais chamarão a atenção de uma
certa intelligentsia entre-guerras: um Gide já
velho, Breton e alguns surrealistas. O corpo da obra como
um todo aliciará um outro tipo de leitor: o poeta René
Daumal, islamizantes europeus tais como Titus Burckhardt e
Frithjof Schuon, certos prelados católicos tornados
cardeais posteriormente, escritores e ideólogos maçons,
pupilos de Gurdjieff e Ouspensky, um verdadeiro saco de gatos.
Do Cairo, Guénon ficava alheio a essa disputa por seu
espólio.
Mas
que a verdade seja dita: Prolegômenos a toda metafísica
futura à parte, Guénon é extraordinário.
Seu pensamento é hipnoticamente convincente e, quem
diria, lógico e racional; lógico e racional
para, quem diria de novo, ir além, apontar alhures,
levar o leitor a uma fresta do Transcendente através
do que os exegetas islâmicos de Aristóteles chamavam
de intuição intelectiva, ou seja, a apreensão
direta do objeto do conhecimento que prescinde da mediação
racional-discursiva, apreensão imediata do objeto que
de algum modo o funde ao sujeito... Algo a que o jovem Hegel
palidamente aludia ao escrever na Fenomenologia sobre
uma síntese dialética final onde o Em-Si fundir-se-ia
com o Para-Si no seio do Espírito Absoluto. O Objeto
e o Sujeito são Um, a Criação é
a maneira encontrada pelo Criador para Conhecer-Se (como diria
o grande sufi Ibn Arabi). Eis aí, como Guénon
gostava de salientar, a pura doutrina do Não-Dualismo
tal como exposta exemplarmente no Vedanta, mas não
só nele, em todas as Tradições derivadas
da Tradição Primordial.
Islam.
Ponto de chegada de Guénon, mas aparentemente não
só dele... Toda uma elite intelectual francesa do entre-guerras
foi fascinada pelo Islam: o Père de Foucauld,
Henri Massignon, D. Masson, Henry Corbin. Pode-se tentar entender
esse fenômeno do ponto de vista histórico, pelas
ilusões perdidas com os horrores da Grande Guerra,
com as idéias de progresso e perfectibilidade ocidentais,
com a revelação do reverso da medalha... Esses
intelectuais foram uma espécie de denúncia in
loco colonialis do próprio colonialismo 'civilizante'
e europeu... Não é fortuito Breton encantar-se
tanto com a denúcia guénoniana do Ocidente decaído,
profano. Foram intelectuais não fascináveis
pelo nascente fascismo, pela velocidade da máquina...
Pensavam a História circularmente, platonicamente,
e nossa época como decadência, final de ciclo,
final dos tempos, fim de manvântara como diria
Guénon. Olhavam para trás, para modos civilizatórios
pré-capitalistas, mais solidários num sentido
comunal, comunitário, mas não socialista. Não
lhes interessava a política ocidental de ideologias,
mas uma volta às raízes, ao deserto, à
calma, à etiqueta (o adab árabe) típica
das sociedades tradicionais. As questões sociais deveriam
ser tratadas através da solidariedade e da esmola...
A falta de justiça social derivaria não de uma
questão de classes primariamente, mas de uma ausência
progressiva do divino no cotidiano, da Transcendência
na Imanência... Faltava ao mundo ocidental o dhikr,
a lembrança de Deus. Guénon foi um grande parteiro
de vocações religiosas, e de modo algum vocações
simplesmente islamizantes. Confirmou e reavivou a fé
respectiva de seus vários leitores, fossem eles maçons,
católicos, judeus, e mesmo a fé de muçulmanos
de nascença. É nesse sentido que há um
espólio guénoniano. Por mais que certos grupos
políticos (notadamente monarquistas e evolianos, além
de integralistas de todo tipo) tentem se apropriar de seu
pensamento, a própria natureza da mensagem de Guénon
faz com que malogrem, ou que essa apropriação
seja meramente decorativa, superficial, alheia ao espírito
da obra.
voltar
|