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MEDITAÇÕES SOBRE O TAROT

Parte I / II / III / IV




A Estrela

Dama Temperança nua e sem asas, que despeja o conteúdo de suas jarras em um córrego Azul-claro como o corpo do Diabo, nosso Arcano A Estrela é um dos mais densamente povoados em detalhes simbólicos. No céu, uma grande estrela de 16 pontas é rodeada por 7 estrelas menores de 8 pontas cada. Ao fundo à esquerda, na colina verdejante, um pássaro negro pousa sobre uma árvore. O nome do Arcano passou nesse baralho específico pelo jogo da cabala fonética (de Caballus, cavalo), podendo ser lido como A Tela ou A Teia, essa última possibilidade sendo fisicamente muito significativa no nosso caso.

Num sentido genérico, A Estrela representa o mundo arquetípico dos sonhos, mundo virtual, principial e portanto ainda não concretizado. Após a destruição da Torre, será necessário um novo influxo formador para nossos projetos, e esse influxo origina-se nesse mundo estelar, regido pela Imperatriz.

O Arcano remete indiretamente à adoração dos três reis magos, guiados que foram por uma Estrela até a manjedoura onde dormia o Messias. De fato, a obtenção canônica de nosso Mercúrio Filosófico precede a Obra Real e é feita por cristalização.

Nossa Dama nua representa esotericamente a Constelação da Virgem, pois Astrea (que significa deusa estrelada) era a filha de um Titã. Nosso Diabo, sendo equivalente a Prometeu, representa simbolicamente o pai de Astrea, e é igualmente nesse sentido figurado o pai da Torre.

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A Lua

Em uma noite de Lua radiante, sobe um multicolorido orvalho de um campo onde há duas torres ao longe, dois cães ou lobos uivando e uma piscina em primeiro plano dentro da qual há um imenso e rubro crustáceo submerso (esse último é uma referência ao signo de Câncer, regido pela Lua). Tudo parece convergir para a Lua, que absorve e é nutrida pela energia vinda das diversas partes do Arcano. Os cães podem estar exalando parte desse orvalho por suas bocas, ou apenas o lambendo ou comendo. O campo é dotado de vegetação.

O Arcano da Lua representa exotericamente tudo o que é humanamente noturno e sombrio, nossos medos encastelados nas torres, magia negra, afecções lunares, vegetativas ou mentais, inimigos ocultos. Sua cifra corresponde por soma cabalística ao Arcano do Eremita e de fato A Lua reflete a melancolia desse último. Como precede imediatamente o Arcano do Sol, indica ser necessário tratar e resolver essas pendências afim de poder prosseguir no Caminho e chegar ao nível integrativo do Sol e dos Arcanos finais.

Na chave iniciática da qual estamos tratando, esse Arcano simboliza o regime da Lua e sua Pedra Lunar, essa última sendo uma panacéia para as afecções lunares de todo gênero. A vegetação indica o regime termal adequado nesse período, que é, segundo os autores clássicos, o último onde se aplica tal tipo de calor.

As sólidas torres e seus respectivos cães representam os dois princípios da Obra que nutrem nossa Pedra Branca, pois a Rebis torna-se sólida e cristalina nessa fase. Esse é também um dos sentidos do crustáceo, sua dura carapaça simbolizando a cristalização que ocorre nesse regime. O segundo sentido do crustáceo é indicado por sua cor Vermelha, indicando que a Pedra Lunar, nesse caso simbolizada pela piscina Azul, contém em potência em seu interior a Pedra Solar, nosso Rubi.

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O Sol

Sob um Sol de 16 pontas e em direção do qual ascende um orvalho tricolor, duas crianças gêmeas brincam sobre um solo Azul. Elas estão ornadas de um cinturão Azul no quadril e de um Vermelho no pescoço. Atrás delas, um muro de tijolos vermelhos e amarelos sobre uma base verde.

Este é sem dúvida o Arcano mais puramente positivo do Tarot, pois representa o Amor Universal, Fonte da ação do Logos Solar sobre a Criação e verdadeiro Amor Crístico. Nesse sentido essas crianças são ambas filhas da Imperatriz, e representam o amor e a amizade pura do Eros superior. Essa é a Energia de simpatia universal que mantém a Criação unida em um Todo, é o princípio aglutinador que impede que o Criado fragmente-se definitivamente em um alienante Caos.

No nível iniciático, o Arcano do Sol representa o regime solar e sua Pedra, que nesse estágio ou roda é nosso Falso Profeta, devendo ser multiplicada no Julgamento afim de ser a Pedra Filosofal glorificada no Arcano do Mundo.

Os gêmeos são os dois princípios da Obra, em estado de perfeito equilíbrio, o que é indicado pelos seus cinturões. O solo do Arcano é Azul-claro, indicando a proveniência de nossos dois princípios. O orvalho nutre o Sol da mesma forma que no Arcano anterior nutria a Lua, e seu simbolismo é o mesmo.

A base do muro é verde, indicando que Nossa Pedra possui a capacidade de ser exaltada posteriormente, o que deverá ser feito. Em relação ao regime termal, o simbolismo do Sol a pino e das crianças semi-nuas a brincar é auto-evidente. O muro representa tanto a Obra quanto sua Pedra, e simboliza também o dever de resguardá-los dos olhares profanos, evocando a discrição e o segredo canônicos.

O que jaz invisível além do muro e portanto mais próximo ao Sol Espiritual é o Mistério, Reino no qual o Adepto é introduzido e do qual não nos compete falar. Nesse sentido o orvalho tem aqui um sentido sobressalente, simbolizando a Reintegração das mônadas no Absoluto.

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O Julgamento

No centro de uma nuvem azul-clara radiante e ornado de uma auréola solar cujo centro é vermelho e coincide com o topo de sua cabeça, o Anjo do Apocalipse toca a trombeta que anuncia a Ressurreição dos Mortos no Juízo Final. Sua trombeta possui uma bandeirola cujo desenho é uma cruz. Abaixo, uma tumba amarela se abre em um piso vermelho, tendo ao fundo montes verdes, azul-claro e cor de carne. Em primeiro plano, um casal renasce junto com seu filho, este estando de costas e de cor azul-clara.

Em seu sentido exotérico, esse Arcano simboliza a volta de coisas passadas, de antigas e até esquecidas pendências cármicas que retornam e que devem ser resolvidas antes da integração final representada pelo Arcano do Mundo. A chegada ao último Arcano representa o completamento de um ciclo, e portanto pressupõe que os fios dispersos nesse ciclo e em ciclos anteriores sejam urdidos em uma trama consistente. Essa é a necessidade e o significado profundo desse Arcano, pois alude ao mistério da reencarnação.

No sentido iniciático de que estamos tratando, o Anjo convoca nossa Pedra a passar novamente pelo processo da Obra, a repassar ou reencarnar pelo crisol representado na bandeirola de sua trombeta afim de que sejam multiplicadas e potencializadas suas virtudes e poderes. Convoca portanto nossa Pedra à chamada multiplicação, processo levado a cabo através de sucessivas Rodas.

Esse Anjo solar de asas multicoloridas, envolto na mercurial bruma de sua nuvem, simboliza a Obra de cada Roda em miniatura, suas cores e fases progredindo do exterior ao interior, da nuvem mercurial ao rubro Sol final do centro da auréola, passando pelas várias cores detalhadas em suas asas, braços e cabelos. De fato, as sucessivas Rodas são miniaturas da Obra original, pois concluem-se cada vez mais rapidamente.

As três personagens na base do Arcano indicam o número mínimo de Rodas que é aconselhado, além de representarem os dois princípios da Obra e seu filho. Esse filho é também o pai do casal, pois essas três personagens simbolizam o Solve et Coagula que cada Roda perfaz.

Os montes verdes indicam o enorme potencial multiplicativo que nossa Pedra possui, e esta é simbolizada pelos montes azul-claro e pelo filho azul-claro do casal. O piso vermelho e a tumba amarela representam a Obra, seu calor, seu Ninho e seu Ovo.

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O Mundo

No interior de uma mandorla vegetal azul-clara, uma mulher ou hermafrodita loiro e nu dança. Seu corpo é adornado por uma écharpe vermelha e azul. Em sua mão esquerda, segura a varinha utilizada pelo Mago no primeiro Arcano. Nos quatro cantos do Arcano, um Anjo, uma Águia, um Touro e um Leão enquadram a mandorla. Dos quatro, só o Touro não possui auréola, e tanto ele quanto o Leão possuem corpos parcialmente vegetais.

Este é o Arcano final do Tarot, e representa o término do ciclo iniciado pelo Mago, o Louco sendo o Arcano de conexão entre ciclos diferentes. Se o Mago começava a manipular os quatro elementos (e humores), agora esses elementos foram plenamente desenvolvidos, equilibrados, integrados e glorificados. Eles são representados aqui pelos símbolos astrológicos de Touro, Leão, Escorpião e Aquário. Esses símbolos remetem também à Visão de Ezequiel e aos quatro evangelistas, indicando o parentesco do hermafrodita glorioso com o Cristo Pantocrator do Apocalipse.

Não é fortuita a semelhança de nossa figura dançante com representações clássicas de Shiva. Nesse sentido o Arcano final representa o Cosmos, e em seu centro reside seu Rei e Fonte de Poder. A Alquimia é a Arte e Ciência que manipula a Vida Universal, donde o caráter vegetal da mandorla que representa entre outras coisas a eclítica celeste. É enorme portanto a responsabilidade moral do Adepto.

No sentido iniciático, a Pedra Filosofal exaltada é simbolizada pelo hermafrodita, sumum bonum e Messias de nosso Mundo. Nela estão gloriosamente equilibrados tanto os dois princípios da Obra presentes na écharpe quanto os quatro elementos indicados pelos símbolos astrológicos. É o triunfo hermético, coroado pelos louros da mandorla cuja cor é muito significativa. Na base do Arcano, indica-se que o fundamento da Obra consiste em um fogo vegetativo (Leão) que excita a vida vegetativa presente em nossa matéria (Touro).

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Conclusão

À guisa de conclusão, fiquemos com estas belas palavras da Senhora Blavatsky:

There is a road, steep and thorny, beset with perils of every kind, but yet a road, and it leads to the very heart of the Universe: I can tell you how to find those who will show you the secret gateway that opens inward only, and closes fast behind the neophyte for evermore. There is no danger that dauntless courage cannot conquer; there is no trial that spotless purity cannot pass through; there is no difficulty that strong intellect cannot surmount. For those who win onwards there is reward past all telling - the power to bless and save humanity; for those who fail, there are other lives in which success may come.

HPB, CW, Vol. XIII, p. 219.

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