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MEDITAÇÕES SOBRE O TAROT

Parte I / II / III / IV



O Enforcado

Suspenso em um varal suportado por dois bastões que remetem ao ígneo naipe de Paus, nosso Composto está imobilizado enquanto recebe o calor moderado de um Sol invisível e de doze galhinhos flamejantes. Está circundado por sua suposta forca assim como que numa panela fechada. Seus pés ostentam o vermelho próprio ao laqueamento hermético, indicando estar nosso Ovo hermeticamente fechado.

Em suas vestimentas estão bem equilibrados o Azul do Mercúrio, o Vermelho do Enxofre e o Amarelo característico do Composto nesse período ou regime de Mercúrio. O Arcano nos fornece caritativamente por essas cores as proporções aproximadas dos dois princípios da Obra, e suas pernas desenham o quaternário assim como sua jaqueta é quartelada.

Pendurado pelo pé, o Enforcado simboliza o Ovo que não toca diretamente nenhuma parede de seu Ninho, recebendo dessa maneira, como Aurach recomenda, um calor uniforme que é transmitido pelo ar circundante. Seus cabelos soltos, alvos e longos remetem ao tênue fogo na base do Athanor. Nas laterais inferiores do Arcano, labaredas Verdes situam-se no interior de dois montículos, indicando que, através do fogo ou calor natural, excita-se nessa fase o fogo vegetativo e secreto da Matéria.

É um momento de passividade e de espera, e qualquer movimento brusco por parte do Enforcado poderá comprometer ou retardar o andamento da Obra. Donde a necessidade da mais completa imobilidade física de nosso Ovo.

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Arcano XIII, ou A Morte

Morte não-nomeada pois não definitiva, nosso horripilante Saturno (que não é exatamente um esqueleto mas um cadáver em estado avançado de putrefação) ceifa na Terra Negra as cabeças do Rei e da Rainha. Utiliza para tanto a foice, emblema tradicional tanto desse deus quanto da Morte. Vêem-se espalhadas algumas mãos e pés decepados, além de alguns ossos e uma rala vegetação. Alternativamente, pode-se entender essa terra como lodo negro, e as figuras humanas como submergidas e em processo de dissolvição em seu seio.

Os Filósofos, ao contrário do comum, regozijam-se ao avistar o negro Corvo de Saturno, pois sabem que ele é o sinal positivo de que sua Obra progride. Ao ceifar e dissolver nosso Mercúrio e Enxofre Filosóficos, Rainha e Rei desse microcosmo, nessa massa negra e putrefata, o regime de Saturno mata ritualmente nossa Rebis ou Composto (re-bis: coisa dupla) afim de poder ressuscitá-la purificada e iniciada nos mistérios de Hermes. Pois não há elevação ou glorificação sem putrefação anterior.

Apesar da desolação aparente, uma rala vegetação nos diz que esta Terra está viva e sob efeito de um tênue fogo interior. Similarmente, indica-se dessa forma o regime termal adequado nessa fase: um calor vegetativo.

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Temperança

Mulher loira com asas de anjo e vestimentas perfeitamente equilibradas entre o sulfuroso Vermelho e o mercurial Azul, a Temperança adiciona água ao vinho. Situa-se em uma Terra que vai enbranquecendo e que é dotada de vegetação. Seu olhar é dirigido compassivamente às cabeças decepadas do Rei e da Rainha à sua esquerda. É um olhar de sabedoria, pois sabe ser temporário o negro suplício infligido à Rebis.

Jupiteriana Senhora por sua estatura imponente, representa o Tempo que cura em contraposição ao Tempo que mata do Arcano precedente. A soma cabalística de sua cifra nos remete ao Arcano do Papa, de energia igualmente jupiteriana e curadora. Simboliza nosso regime de Júpiter, onde de fato a negra matéria saturnina vai clareando gradualmente tal como o vinho pela adição de água.

É um Arcano que evoca novamente a paciência necessária à Obra, pois indica processos lentos e graduais. Cabe ao Operador manter a vida vegetativa do Composto, controlando com temperança o fogo natural que lhe é aplicado. Esse calor deverá ser mantido até o término do regime seguinte, como bem indica o Cosmopolita no cap. VII do Tratado do Sal de sua Nova Luz Química.

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O Diabo

Andrógino Baphomet Templário, com ventre insaciável e os cornos do Deus Cornífero ornando a lasciva cabeça, nosso Diabo segura tal como Prometeu o sulfuroso Fogo roubado dos deuses olímpicos. São igualmente sulfurosas e fedorentas suas asas de morcego, em contraste com seu corpo predominantemente mercurial. Todavia, o Azul empregado aqui é mais claro que o Azul mercurial dos outros Arcanos, detalhe a ser meditado e decifrado pelo estudante. Observe que o solo do Arcano é negro e parece estar submerso em água. O casal de demônios pode ser visto como os dois princípios da Obra em potência e portanto ainda não plenamente humanos pictoricamente, além de representar dois elementos naturais que devem ser dissociados.

Como Eros inferior, o Diabo une carnalmente e passionalmente o casal de demônios na base do Arcano. A corda que prende esses últimos continua discretamente através de suas caudas, sugerindo um aprisionamento muito mais amplo e coletivo dos seres criados naturais. Ao contrário do que parece, o trabalho desse Arcano será o de separar ligações naturais bastante tenazes.

Como detentor e Iniciador nos Mistérios metalúrgicos do Fogo Sagrado, nosso Diabo representa Prometeu, o Titã rebelde amigo da Humanidade. Há aqui e nos dois Arcanos seguintes (A Torre e A Estrela) uma interpolação de Vias que conecta-se com o Arcano do Carro. Esses quatro Arcanos tratam de uma Via Seca baseada na obtenção do Régulo Marcial Estrelado (indicado pelo Carro), Via que demandará um intenso Fogo metalúrgico (simbolizado pelo Diabo) e implicará na quebra canônica do Ovo após a Cocção (A Torre) afim de nos dar nossa Pérola (A Estrela).

Para a Via Marítima seguida pela maioria dos Arcanos, esse intermezzo pode ser entendido como uma advertência em relação ao manejo do Fogo, pois se esse último tornar-se demasiado intenso (O Diabo) há o risco real de explosão (A Torre).

Numa chave mais significativa para nós, o Arcano do Diabo simboliza o fedorento processo de obtenção de nossa Água Seca, A Torre simboliza o processo seco de obtenção de nosso Enxofre Filosófico e A Estrela indica a operativa de obtenção de nosso Mercúrio Filosófico por cristalização. Dessa maneira o Tarot nos fornece ensinamentos que na ordem normal da Obra deveriam vir depois do Louco e antes do Mago. Um bom paralelo para o Arcano do Diabo é a nona gravura constante no Philosophia Reformata de J. D. Mylius (Frankfurt, 1622).

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A Torre

Em um sentido geral e moral, o Arcano da Torre é uma alusão à Torre de Babel e à conseqüente punição divina da hubris humana. Representa pois a destruição e a impossibilidade do projeto humano de esquadrinhar racional e completamente o Cosmos. Ainda em um registro moral, representa o inevitável desastre de planos e linhas de ação impulsionadas pelas paixões exacerbadas do Arcano anterior.

Todavia, no nível propriamente iniciático a Torre simboliza o Athanor clássico, com entrada em sua base para um vegetativo calor de cinzas e tampa superior removível para o controle do Ovo em seu Ninho. Nossa Torre é pois de fato a Casa de Deus, pois é em seu interior que será gerado nosso Divino Rubi.

À semelhança do baixo-relevo esculpido no Portal do Julgamento da Notre-Dame de Paris, A Torre representa os perigos da exposição de nossa Obra aos raios diretos do Sol ou a relâmpagos. Porém, ao contrário do baixo-relevo, não há aqui o cavaleiro-alquimista a proteger seu Athanor contra as influências externas, donde o desastre representado pelo Arcano. Esse baixo-relevo é reproduzido na prancha V de O Mistério das Catedrais, primeira obra publicada do Adepto Fulcanelli.

Como vimos, A Torre representa também o perigo real de explosão no caso de um fogo externo demasiado forte, além de simbolizar a Quebra canônica do Ovo ao final da Via Seca. Contudo, para a Via da qual o Tarot trata precipuamente, simboliza a operativa seca para a obtenção de nosso Enxofre Filosófico.

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