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MEDITAÇÕES
SOBRE O TAROT
Parte
I / II / III
/ IV
Os
Enamorados
Após
ser aconselhado pelo Papa, o neófito deve fazer sua
escolha: qual Via deseja seguir? Sob a aparência
do livre-arbítrio, essa escolha já está
determinada por Cupido. Esse último irradia a energia
Solar e é seu diplomata.
É
o Arcano da encruzilhada e do Y pitagórico. As encruzilhadas
são protegidas por Hermes, que dá o discernimento
necessário para a escolha. O Y, que representa superficialmente
a escolha entre o Vício e a Virtude, em um nível
iniciático simboliza a escolha para cada
operador da sua Via para a Obra do Sol. Em um
nível profundo e pré-existencial, é o
próprio Sol que escolhe sub specie aeternitatis
como quer ser atingido pelos Eleitos, suas vidas e Vias concretas
nada mais sendo que o desenrolar temporal de Seus desígnios.
Olhando
à esquerda para a Dama e também para a aprovação
do Papa, nosso Caminhante aponta e toca o ventre da Natureza
à sua direita (e esta lhe toca o coração),
enquanto é tocado nos ombros e instruído
pela nobre Dama à sua esquerda, que lhe aponta o solo
com a outra mão. A Obra consiste, pois, na redenção
e regeneração da matéria.
Nesse
sentido, nossa Nobre Dama Alquimia casa aqui com sabedoria
seu casal de filhos nubentes, o Fogo e sua Água, o
rubro Enxofre e o alvo e feminino Mercúrio, ambos simbolizados
anteriormente e em separado pelo Casal Imperial. Os Enamorados
são portanto o Arcano da hierogamia alquímica.
Nossa
Dama fita o Caminhante mas fita também além,
contempla à sua direita o Arcano do Carro e antevê
os perigos a ele inerentes. Caberá a ela advertir e
orientar nosso Caminhante para a dura jornada que o
aguarda, pois o Caminho deve levar de modo canônico
ao Oriente, morada do Sol nascente.
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O
Carro
Arcano
de natureza marcial e mercurial, o Carro simboliza o Caminho
escolhido no Arcano precedente, agora sendo percorrido diligentemente.
Nosso pequeno rei deve sem dúvida estar algo impaciente,
pois a estrutura das rodas e dos cavalos de seu carro parece
condená-lo à mais absoluta imobilidade.
Qual a razão desse aparente paradoxo?
É
necessário seguir resolutamente a Via escolhida, porém
evitando a pressa e a ansiedade em alcançar
nosso Velocino de Ouro. A pressa é na Obra a mãe
de todos os desastres. Pequeno rei de teu pequeno mundo
ou microcosmo, aprenda que o mais importante na Obra
é a terrestre viagem (ou, em outras Vias, a
úmida travessia), teu cobiçado Velocino
nada mais sendo que o certificado de que a fizeste
canonicamente e com sucesso. Siga sempre o ritmo da Natureza,
suas estações e ciclos, com calma e intuição.
Festina Lente: apressa-te, mas lentamente. Eis a razão
da imobilidade do Carro.
Nosso
Arcano é o Carro Triunfal de uma determinada
Via terrestre, contendo um príncipe ou pequeno
rei sob um teto ou parasol estrelado. Digamo-lo
sem rodeios: a Via escolhida e exemplificada pelo Tarot nesse
Arcano é indicada simbolicamente como sendo a Via Seca
do Régulo Marcial Estrelado. Via curta e perigosa
em função dos riscos de explosão, é
a Via Nobre em contraste com as marítimas
Vias plebéias.
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A
Justiça
Senhora
do Karma, aparadora das arestas do Caminho e
de nós mesmos (pois somos o próprio Caminho),
é um Arcano de fortes matizes saturninos. Nada mais
justo e inevitável que a efetuação
de pequenas ou grandes correções à
fuga por vezes desenfreada do Carro. A Justiça reduzirá
portanto o impetuoso trote do Carro ao meditativo andar
do Eremita. Às vezes pesada e dolorosa, seu maior interesse
é corrigir nosso curso afim de que possamos atingir
de maneira segura nosso almejado Oriente.
Com
sua espada em riste corta nossos desvios, após
medi-los de acordo com os pesos e medidas canônicos
de sua balança. Lembra-nos didaticamente das
importantes diferenças entre o peso da Natureza
e o peso da Arte, tópico tratado de maneira
esclarecedora pelo Adepto Fulcanelli em suas Moradas Filosofais.
O Carro apressadamente erra ao usar o simplório
peso da Natureza, e nosso meditativo Eremita, curado pela
Justiça da impetuosidade juvenil do pequeno rei, compreende
intuitivamente o que vem a ser o peso da Arte.
Seu
boné de magistrado ostenta uma jóia circular
acima dos olhos, correspondendo à ativação
de certas glândulas endócrinas conhecidas desde
a mais remota antigüidade. Simboliza desse modo a necessidade
do desenvolvimento da intuição transcendente
por parte do Caminhante, afim de que este possa de fato compreender
o sentido da Obra e agir de acordo em sua Operativa.
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O
Eremita
Arcano
introspectivo e por vezes melancólico, o Eremita volta
atrás no Caminho e, tateando no escuro com seu
bastão, percebe onde errou. Simboliza os períodos
Yin que naturalmente sucedem aos momentos Yang.
É o período de solidão necessário
para curar as feridas impostas pela espada da Justiça,
e para preparar-se para o futuro imponderável
que a Roda da Fortuna nos reserva.
É
o voltar e pacientemente recomeçar, percebendo
que só necessitaremos de um pequeno fogo natural de
lamparina para excitarmos o fogo secreto que
jaz no interior de nosso Reino. Como bem o disse Aurach no
Jardim das Riquezas, nossa Obra necessita tão-somente
do fogo de uma vela no início e o de três ao
final.
Esse
Arcano é intimamente ligado à noção
de segredo e à contemplação
solitária. Siga atentamente as pegadas deixadas
pela Natureza em meio ao breu noturno, assim como magistralmente
complementa o Arcano o Emblema XLII do Atalanta Fugiens
de M. Maïer.
Com
seu olhar fixado na Justiça dos pesos e medidas,
nosso Eremita segura atentamente à altura dos olhos
o fogo externo da lamparina, enquanto comunica-o
com seu rubro bastão ao solo, excitando
o fogo secreto desse último. Observe como a ígnea
cor vermelha inicia na lamparina, passa pelo braço
direito e ombros do Eremita e finalmente desce ao solo pelo
braço esquerdo e seu bastão. Ao mesmo tempo,
sua capa protege dos ventos noturnos esse frágil
sistema, pois ele não despreza a advertência
esculpida em Dampierre-sur-Boutonne: Sic Perit Inconstans.
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A
Roda da Fortuna
Regulado
com justiça pela Esfinge alada em seu
topo, nosso Fogo de Roda alterna a sublimação
do sólido com a fixação do volátil,
cada um em seu devido tempo canônico. Pois assim reza
a Tradição: Suba da terra ao céu e
do céu desça à terra, e reúna
a unidade das forças das coisas superiores e inferiores.
Nossa
Esfinge é alada, coroada e de natureza
mercurial. Representa a Iniciação
hermética, e guarda seus secretos arcanos. É
aparentada a Lúcifer, o Portador da Luz, identificado
a Prometeu. Eis o significado original do suposto Baphomet
dos Templários, tão inteligentemente esculpido
no topo da entrada principal da Igreja Saint-Merry
em Paris, e símbolo da Fonte da Gnose
dos Eleitos.
As
vestimentas dos dois animais representam seu caráter
alado ou não, e estes têm o mesmo significado
que os dragões alados e terrestres que lutam nos velhos
textos. Juntos formam a serpente Ouroboros descrita
e ilustrada na Crisopéia atribuída a
Cleópatra, sive serpens qui caudam devoravit,
serpente de sabedoria que protege e circunda a divisa
En To Pan, O Todo é Um.
É
necessário que sejas iniciado para saber manejar
convenientemente essa Roda, afim de que, através do
conhecimento exato de seu específico e homônimo
fogo, possas atingir essa tão proclamada Fortuna.
Sem esse conhecimento a manivela não será
girada por ti, e esse Arcano representará então
tua passividade frente ao que o Destino te trará
de bom ou ruim.
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A
Força
Potente
e serena mulher que sem esforço aparente
abre e doma a goela de um leão situado na sua
região pubiana, o Arcano da Força inaugura
a série de Arcanos hibernais que irão
preparando a eclosão dessa mesma Força no Arcano
XV, O Diabo. Essa série, constituída da Força,
do Enforcado, do XIII ou Morte não-nomeada e
da Temperança, representa a preparação
e potencialização latente dessa imensa
Energia que é trabalhada no interior do Operador e
no Crisol, Energia que se manifestará com força
intensa no Arcano do Diabo. Como bem diz Hermes, essa Energia,
materializada ao final da Obra na forma de nossa Pedra
ou Santo Graal, é a força forte de
toda força, pois vencerá toda coisa sutil e
penetrará toda coisa sólida.
A
Obra gera consigo um sutil mas poderoso Campo energético,
Campo que é concomitante ao profundo círculo
hermenêutico formado pelo Operador e sua Obra. O
adestramento e purificação das
energias grosseiras do Operador, essas últimas aqui
simbolizadas pelo apetite voraz do baixo-ventre, são
fundamentais para a boa condução da Obra e para
que evitemos trágicos acidentes que poderão
comprometer nossa saúde e integridade física
e mesmo afetar imprevisivelmente o meio físico circundante.
A famosa aurora boreal de 1938, supostamente causada por um
descuido de Canseliet, é um bom exemplo disso.
Um
dos lemas principais da Arte é a Paciência,
além da Humildade e da admoestação
a Orar e Laborar. A Paciência, antítese
das energias grosseiras no Operador, possibilitará
a esse último atingir a serenidade e a clareza
mental intuitiva necessárias para observar um outro
e derradeiro lema, a saber: Seguir a Natureza.
A
imagem da Força abrindo delicadamente a goela
do leão é uma indicação de que
é necessário que a Matéria se abra,
que o Enxofre representado pela capa vermelha da Força
se funda suavemente com o voraz Mercúrio ou
Dissolvente Universal e o abra, afim de que o Campo
possa putrefazer-se no período de Saturno
representado pelo Arcano XIII.
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