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MEDITAÇÕES SOBRE O TAROT

Parte I / II / III / IV

 

Para J.L., J.E., J.A., H. e D.

Sophorum Lapis Non Datur Lupis
- Villa Palombara, inscrição


Introdução

Criado em sua forma clássica à mesma época das grandes Catedrais e de seus baixos-relevos alquímicos, o Tarot dito da família ou linhagem de Marselha esteve na verdade presente e foi produzido em outras cidades e regiões muito antes do que o tardio baralho de Nicolas Conver de 1760. Esse tipo de Tarot, por sua forma tradicional e autoria semi-anônima, retém em seu seio a mnemônica própria à grande Tradição iniciática ocidental.

Assim como o bom Schwaller de Lubicz percebeu serem os neteru egípcios (de Neter, deus) personificações de funções cósmicas, o Cosmos sendo entendido como um ser vivente dotado de órgãos vitais e portanto de uma fisiologia própria, assim é o Tarot e seus Arcanos. É o Espelho do Mundo Oculto e de seu Caminho: cabe ao aspirante meditá-lo profundamente em seus diversos níveis e chaves.

O que segue é apenas uma interpretação pessoal do que seria uma das chaves do Tarot (compare por exemplo o presente estudo com a erudita e interessante interpretação que foi feita depois por Hervé Delboy). Como potente instrumento iniciático, o Tarot comporta inúmeras chaves e, mais do que isso, tende a falsear qualquer interpretação rígida ou demasiado estruturada de qualquer uma delas. Assim como o Diabo e sua Torre parecem ser intrusos incômodos à procissão canônica da Obra, haverá sempre em qualquer interpretação um indesejado Diabo a destruir nossa Torre. Esta fonte de incerteza é precisamente a assinatura definitiva que sacraliza o Tarot como instrumento para o Despertar, pois quebra a estrutura mental e abre para além, para o imprevisível e surpreendente Real que é Fonte e Não-Fonte de qualquer Caminho.

O baralho aqui reproduzido é a versão do Tarot Conver feita por Camoin e Jodorowsky. Os detalhes pictóricos que foram acrescentados por esses autores ao baralho original de 1760 não são objeto de análise no presente estudo. Uma boa reprodução fac-símile do baralho original é fornecida pela firma Lo Scarabeo, de Turim.

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O Louco

É o princípio caótico do Universo, manifestando-se como divina loucura. É a entropia da mente, o rasgar o Véu da carne e do concreto. É um arcano notadamente netuniano. É o vislumbre metafísico mas não-iniciado e portanto sujeito a todos os erros e devaneios. Ó profano louco, não erres só nessa selva escura, procura antes companheiros mais experientes que possam orientar-te. Teu anseio é nobre, mas sozinho corres riscos em demasia.

Espontâneo e sonhador, não vês a figura ridícula que às vezes és. Traseiro à mostra, mordido por uma bizarra mistura de cão e gato, olhas as estrelas distantes e nem percebes o precipício à tua frente. Claro, tua alma pertence às estrelas, é da mesma natureza delas e nelas originou-se como bem disse Platão no Timeu, mas o retorno à Casa é um trabalhoso penar, ó louco. Penosa regeneração, penoso voltar atrás. Procura a escada de Jacob, portanto!

Com teu saco de peregrino, vá a Santiago. Santiago de Compostela, Compos-Stela: Composto Estelar, Campo da Estrela. Cultiva teu campo interior afim de que brote dele, como orvalho nítrico, a Estrela mercurial, dissolvente universal de todos os metais decaídos. A Estrela que necessitas para ti, caro microcosmo, caro microprôsopo, é do mesmo estofo da estrela do céu que contemplas absorto: cultiva teu campo.

Ao te rasgar o Véu da carne, deixe que o animalzinho vá até teus ossos e que os desnude também, pois teu anseio de Retorno deve estar gravado nos sais de teus fêmures se és de fato um Escolhido. O Caminho nunca foi para a massa inconsciente, caro amigo, mas para a elite espiritual nesse mundo exilada.

Estás desconectado de teu corpo, de teu aqui e de teu agora, e portanto vagas inconsciente através das tuas inócuas fantasias. Reconecta-te, toma posse e funde-te com tua corporalidade. Teu corpo e a matéria em geral são os poderosos instrumentos para o Despertar. Acorde. Doutro modo seguirás reencarnando continuamente de sonho em sonho, como um perfeito idiota para sempre carregando esse tolo saco de carne. Já sentiste como são patéticos os drogados? Pois bem, num sentido real és muito mais semelhante a eles do que imaginas.

Ao dirigir seu olhar ao céu estrelado, o Louco peregrino não percebe a pedra na qual seu pé esbarra, pedra comum e de pouco valor, rejeitada pelos arquitetos e no entanto Pedra Angular da Obra que se desenrolará pelos Arcanos seguintes.

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O Mago

Arcano mercurial, no seu sentido de argúcia e trapaça. É o Iniciado virtual, o homem que recebeu a pequena semente do Reino em seu interior, e que agora tem de trabalhar arduamente pelos arcanos subseqüentes para frutificar essa semente de regeneração, para tornar sua Iniciação real.

É a presunção arrogante e vã do controle dos quatro elementos, da maestria do mundo, do equilíbrio perfeito dos quatro componentes do microcosmo: corpo, alma, mente, espírito, respectivamente Terra, Água, Ar e Fogo. A arrogância do Mago o cega para o fato de que tal controle ou manipulação dos mundos interior e exterior é uma quimera. Através de duras penas algo é conseguido nesse sentido depois de anos, mas é tão frágil e instável que chega a ser risível. O Cosmos é fluxo, um rio caudaloso que nunca para, não há humano engenho que o possa delimitar, estruturar, esquadrinhar: o Mago é um presunçoso, um presunçoso hábil.

O Mago olha com desdém para a sua esquerda, para o Louco que foi há não muito tempo. Recém-saído da Loucura anterior, nosso arcano Caminhante (isto é, o Arcano invisível que viaja seqüencialmente através de todos os 22 Arcanos Maiores) julga-se agora muito esperto e esclarecido com a pouca Luz que recebeu... Mas é hábil, e isso será de imensa valia na manipulação do laboratório: Labora e Oratorium, como bem sugeriu Henricus Khunrath. Mago Mercurial, é através de tua hábil manipulação que poderás sacar a Luz do Chaos que te é fornecido nessa vida. Não é à toa que tua mesinha só possui três pernas a sustentar o topo de quatro pontas: compreenda bem como o perfeito equilíbrio do Sulphur, do Mercurius e do Sal é concomitante e co-necessário ao perfeito equilíbrio dos quatro elementos e dos quatro humores (Seco, Húmido, Quente, Frio) de teu Campo ou Reino interior.

Percebe, ó arrogante, quão pouco sabes, e pede humildemente ajuda. Ao mesmo tempo, como é precioso esse pouco que sabes, pois o sabes de verdade e não como os sofistas. O sabes por haver experimentado, manipulado, vivido essas pequenas e preciosas verdades. São pequenas jóias que encontraste no Caminho e que o sinalizam, guarde-as contigo pois te serão úteis adiante - tal como nos contos de fadas.

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A Papisa

Irônica senhora, isíaca e lunar, velha como o Tempo, guarda em seu colo os arquivos akáshicos de tudo o que foi, é e será. Nesse sentido é também saturnina, a íntima relação oculta entre a Lua e Saturno sendo indicada pela equivalência do mês lunar com o ciclo saturnino.

A Papisa sabe mas recusa-se a falar. É a Sabedoria Oculta, sabedoria que olha o Mago à sua esquerda e ri de sua tolice e prepotência. Esfinge que o nosso arcano Caminhante terá de encontrar para prostrar-se humildemente, e a quem deverá fazer um juramento de devoção. O Iniciado deve aspirar a essa Sabedoria, a essa comunhão com os desígnios ocultos do Tao. Deverá desenvolver com sutileza e delicadeza essa percepção intuitiva e lunar, para poder posteriormente aconselhar sua ação efetiva no mundo tal como o Papa aconselhará o Imperador.

Estéril enquanto mulher, é uma Matriarca Fálica. Virgem negra pré-cristã, negra da negra Sabedoria, é fértil apenas para a agricultura celeste, ou para os jardins marítimos do bom Hortulanus. No cultivo do Reino ou Campo interior, ela é a energia celeste sutil que abençoará ou não nossos esforços, imponderável fator de nosso sucesso ou fracasso. Ao purificarmos pacientemente nosso corpo de energia, tornamo-nos mais aptos a atrair por simpatia essa diáfana e sutil energia cósmica. O semelhante atrai o semelhante, no Céu, no Homem e no Crisol.

Ó Lunar Vestal, ajuda o Caminhante que o merece, de ardente desejo, de coração puro e de mãos pacientes e trabalhadoras. Reconheça nosso esforço sincero e tenaz, e tenha piedade de nós. Ensine-nos a te encontrar, ensine-nos a te agradar e a receber tuas graças. Assim seja.

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A Imperatriz

Arcano fértil, prenhe e maternal, jupiteriano e venusiano. Ao contrário da Papisa, a Imperatriz é a Virgem Branca, Virgem de Amor materno e incondicional pela Criação, geradora do Logos ou Princípio Crístico cuja epítome é a cola amorosa e fraterna que une os dois gêmeos no Arcano do Sol. Geradora e frutificadora da empatia universal que une os mundos, é o Eros superior tal como Platão o descreve no Simpósio, o Eros inferior pertencendo à seara do Arcano do Diabo. Esses dois Arcanos antinômicos são respectivamente as águas superiores e as águas inferiores, as primeiras sendo a matriz do mundo arquetípico e as segundas o reflexo invertido (e decaído na matéria) das primeiras. A corda que une no Diabo é um sujo simulacro da cola áurea que une em Cristo os homens de boa vontade.

Essas águas superiores são estados regenerados de consciência onde o Adepto comunga permanentemente com o Amor Crístico, amor universal, impessoal e cósmico. Nossa Imperatriz não olha nem à direita nem à esquerda, mas obliqüamente, um olhar desfocado e impessoal que atinge o fundo do criado e não suas formas individuais. É através da energia cósmica representada pela Imperatriz que podemos nos tornar de fato cristãos.

Princípio amoroso da divindade criadora, sem essa Nobre e Nossa Senhora o mundo estaria no mais escuro Chaos, pois sem seu ventre não seriam paridos os arquétipos informantes da matéria. Ela é a Terra antimonial de seu cetro, cultivada pelas Águias imperiais de seu escudo, Terra interior pronta para ser fecundada pelo esperma masculino do Imperador que essas águias representam. Se ela é a Terra, o Imperador é o Céu, e para criar nosso mundo é necessário unir o superior com o inferior afim de realizar o milagre do Um. Toda a Obra dependerá dessas núpcias imperiais, que devem ser protegidas pela escolha do leito adequado.

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O Imperador

Agressivo e dominador da matéria simbolizada pelo quaternário, de natureza jupiteriana e marcial, o Imperador segura senhorialmente seu fálico cetro como numa imensa ereção, cetro com o qual a Imperatriz fecundava seu ventre. Olhar dirigido benevolamente à esquerda, contempla e protege sua Senhora, apontando a glande de seu cetro para o solo, para a Terra que ele domina e fecunda. Suas pernas cruzadas reforçam sua cifra quaternária, e sua águia encontra o olhar da águia de sua Senhora.

É nosso rubro Enxofre Filosófico, esposo do alvo Mercúrio Filosófico simbolizado pela Imperatriz, e relaciona-se com ela tal como o cozido com o cru. É também o Adepto (de Adeptus, possuidor) em plena posse de seus poderes sobre seu mundo material, mundo composto do perfeito equilíbrio dos quatro elementos e dos quatro humores. Esse mundo regenerado é sua Pedra exaltada, tão ricamente simbolizada no Arcano final da Obra, O Mundo.

É nossa Maestria, nossa capacidade de fazer e portanto de ser, agora numa oitava superior ao Arcano do Mago. Pois se o Mago simboliza a capacidade ou habilidade para a Obra, o Imperador representa sua realização efetiva no e pelo Operador. Nesse sentido ele é mais velho que o mercurial Mago, pois amadurecido pela experiência e pelo avanço positivo obtido no Caminho.

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O Papa

Jupiteriano e sagitariano, com sutis e sublimados matizes de um netuniano Mercúrio, o Papa é, ao contrário da Papisa, a Sabedoria que fala e transmite. É o sagrado dever do Adepto-Imperador, dever que decorre do adeptado e que lhe é naturalmente posterior.

É Hermes Trismegisto, o grande Iniciador, pois detém a maestria e o conhecimento oculto dos três mundos de sua coroa e das três fases da Obra de seu cetro. Suas mãos, que transmitem, iniciam e abençoam, são marcadas pela Cruz de Malta, pois sua sabedoria, conhecimento e maestria advêm do seu infatigável trabalho no Crisol. Olhando à sua direita, aconselha e abençoa os neófitos para que façam por si sós a escolha correta do Y pitagórico representado pelos Enamorados.

Junto com seus dois alunos, forma um potente falo voltado para cima, para a inseminação espiritual do mundo, inseminação simbolizada de maneira sutil pelo encosto de seu trono. Representa a própria Sabedoria dos Arcanos como um todo, a moela de Sabedoria que a Obra provoca e produz.

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