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O
ZEN E A ARTE CAVALHEIRESCA
DE JOGAR O TAROT
Apesar
de existirem um sem-número de receitas e sistemas explicativos
do Tarot, percebo cada vez mais claramente como a arte de
jogá-lo independe dos mesmos. Esses sistemas podem
ser ser tanto de caráter extrínseco às
cartas, tais como a cabala, a numerologia, o ocultismo ocidental
do século passado, as loucuras de Crowley e sua Thelema
(cópia deslavada da obra de um verdadeiro iniciado,
François Rabelais, do século XVI, em especial
os últimos capítulos de La vie très
horrificque du grand Gargantua), ou sistemas de caráter
intrínseco, exemplificados pela moderna tendência
francesa de analisar esmiuçadamente os detalhes pictóricos
de um baralho específico tido como iniciático,
o oitocentista de Nicolas Conver de Marselha. Esses últimos
autores acham que todos os detalhes desse baralho são
extremamente significativos. Se fôssemos psiquiatras,
poderíamos facilmente classificar o primeiro grupo
como paranóico, e o segundo como obsessivo.
| O
primeiro grupo já foi devidamente tratado por autores
como Michael Dummett, Cynthia Giles e também pelo
autor brasileiro Nei Naiff; cabe a nós uma crítica,
ainda que sumária, do segundo. Ora, eleger um baralho
específico como O baralho iniciático é
no mínimo ingênuo, e supor que portanto todos
os seus detalhes pictóricos são terrivelmente
importantes só se justificaria se a primeira hipótese
fosse confirmada, isto é, de que o impressor Conver
(e não Dodal ou Noblet, que produziram baralhos
do mesmo gênero algum tempo antes) fosse um grande
iniciado. No fundo, é a velha mitologia à
la Papus/Lévi de que o Tarot encerraria cripticamente
a soma total de uma sabedoria iniciática. Essa
é outra hipótese romântica, não
comprovada por pesquisas históricas. |
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É
evidente que os Tarots de Marselha, que faziam parte
de um jogo popular com regras estabelecidas (ver site
de Jean-Claude
Flornoy), contêm uma iconografia riquíssima
em ressonâncias internas para quem as medita,
para quem as contempla. Donde sua boa fortuna para além
do simples jogo, a partir de Court de Gébelin
(que não era um esotérico, diga-se de
passagem). Mas
inferir daí uma intencionalidade x ou
y, isso fica por conta do freguês... Temos
uma capacidade enorme de projetar nossos anseios no
que vemos, o objeto tal como é percebido é
quase sempre uma elaboração do sujeito
que o percebe. Quando
esse objeto é um símbolo, ou seja, algo
que comporta não uma denotação
mas uma conotação imensa, plural, nossas
projeções tornam-se ainda mais férteis.
Junte-se a isso a necessidade humana, demasiada humana
(como diria Nietzsche) de estruturar o mundo, de dar
significado e uma certa estabilidade ao fluxo amorfo
do existente, e temos todos os tipos de explicações
sistêmicas para o nosso pobre baralho de Tarot.
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O
que não se percebe é que o que estrutura uma
mancia, uma arte adivinhatória, é algo bem mais
simples, algo quase matemático. É necessário
apenas elementos-base (pontos, búzios, cartas, grãos
de café, unidades astrológicas), uma combinatória
possível entre eles (gerando figuras geomânticas,
tiradas, jogadas/spreads, mapas de astrologia horária),
e regras mais ou menos consensuais de como interpretar tanto
os elementos-base quanto as combinações lícitas
(ou famílias de combinações).

A
pergunta natural seria: mas porquê funciona? Se é
apenas uma combinatória, como pode dar respostas existencialmente
significativas às nossas perguntas? Jung e Pauling
chegaram bem perto, com seu princípio da sincronicidade,
mas o problema é que esse princípio é
para esses autores um postulado, uma constatação.
Na minha opinião, esse princípio está
fundado em algo maior.
Esse algo maior é o Tao. O Tarot (e qualquer outra
mancia) funciona pois acessa o momento cósmico, o fluxo
(amorfo, sem estrutura definível) do mundo. Na base
do Tarot está a Magia, essa capacidade de comungarmos
com consciência (pois estamos sempre em comunhão,
mesmo se não o sabemos) com o fluxo do mundo. Esse
fluxo, e o Tarot que o traduz em parte, dissolve as individualidades,
e dissolve também uma temporalidade rígida.
Há apenas o fluir, e esse fluir não é
racionalizável ou especialmente compreenssível
pela nossa mente. Quem pode compreender é o "coração"
(no budismo zen chamado de coração-mente), pois
esse "coração" (não se trata
do afetivo comum) é o Todo, é a própria
mente-de-Buda. Nesse sentido, a prática do Tarot é
uma prática Zen, é uma prática mística
e contemplativa.
Mestre Tokusan (742-865) está sentado em zazen
na margem do rio. Um discípulo chega e, aproximando-se,
pergunta:
"Bom dia, Mestre! Como vai?"
Tokusan interrompe seu zazen e, com o leque, faz sinal
ao discípulo: "Venha... Venha!" E se levanta,
e começa a andar, silenciosamente, calmamente, ladeando
o rio, seguindo o fluxo da água...
O discípulo, nesse instante, obtém o satori,
a suprema iluminação.
Nota:
Uma das implicações de tudo isso é o
conceito de máquinas oraculares. Essas máquinas
funcionam mesmo com um operador que casualmente aprenda o
significado rudimentar dos elementos-base, e podemos até
pensar numa máquina oracular funcionando sem operador
algum, como é o caso, no meu entender, da astrologia,
pois seus elementos-base estão sendo 'jogados' no céu
sem nenhum operador humano... Como disse Fernando Pessoa,
"Tudo é símbolo".

Nota
da Nota: O meu uso do termo 'máquina' é
uma metáfora para o funcionamento do próprio
universo, nada tem a ver com máquinas propriamente.
O universo é 'algo' que possui a propriedade de autoreferir-se
simbolicamente. Ou seja, um objeto do universo é 'ele
mesmo', mas também está simbolizando outro assunto
ou objeto do universo. exemplo: o planeta Marte é ele
mesmo, é "signo de si mesmo...". Além
disso, astrologicamente esse planeta significa uma série
de outras coisas, no mapa de fulano ou sicrano (ou beltrano)
ele significará eventos e pessoas muito específicas.
Donde Fernando Pessoa escrever: "Tudo é símbolo".
Aliás é provável que o poeta tirou essa
frase de um rito maçônico francês. O universo
é portanto uma grande casa de espelhos, composto de
mônadas se quisermos usar a linguagem de Leibniz (que
aliás era um profundo conhecedor da literatura esotérica
e alquímica, assim como Newton... não é
à toa que Guénon escreveu um magistral Princípios
do Cálculo Infinitesimal, mostrando o arcabouço
metafísico e esotérico dessa disciplina); ou
podemos utilizar o adágio gnóstico, mais antigo
e alquímico, da Tábua de Esmeralda: "O
que está em cima é como o que está embaixo,
para a perfeição da Coisa Única".
À cada época a sua linguagem, é por essa
razão que utilizei a palavra 'máquina', no meu
contexto ela fez as vezes de um neologismo.

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