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TAROT
Tarot
Camoin/Jodorowsky

Dogen escreveu longamente sobre a importância de não
se procurar a iluminação. Portanto, nada da
languidez do sentimento oceânico para nós! Pelo
contrário, a ênfase é posta no cotidiano,
na prática cotidiana. Essa prática pode influenciar
beneficamente nossa prática de jogar tarot...
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"Não nos enganemos e aceitemos a missão
de nosso jogo maravilhoso e mágico que no meu entender
não prediz nosso futuro mas nos abre muitas portas
e nos convida a adentrá-las. Como é que ele
funciona? Só Deus sabe, a menos que seja nosso anjo
que utiliza o sagrado baralho mágico como linguagem
de comunicação entre nosso consulente e ele
mesmo através de nós.
Saberemos um dia? Devemos saber?
Ou devemos apenas e simplesmente aceitar?
Quem terá a resposta?"
Alain
BOCHER
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Que os objetos do universo sejam símbolos desprovidos
de intervenção humana... é talvez uma
fonte de contínuo maravilhamento. Ir além dessa
constatação pode nos levar ao bizantinismo mais
neurótico... Os planetas podem ressoar os acontecimentos
da vida de um gato, de um cão, e então? Esses
animais não estão em relação hermenêutica
com os planetas... Eles não estão nem conscientes
da existência desses planetas, portanto são incapazes
de projetar significados a eles...
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A Divina Ação: após uma salutar prática
meditativa de zazen, comecei a ler, como de hábito,
uma ou duas páginas de um livro de sermões budistas
transcritos das falas de um monge japonês que vivia
nos Estados Unidos, Dainin Katagiri. Ele dizia:
É
impossível fazer todas as coisas que nos propomos apenas
com o nosso poder. Na verdade não tocamos o Real por
nossos próprios esforços somente. Se tentares
tocar o que é Real, imediatamente tombarás na
delusão. É a situação humana.
Podemos
realmente compreender o porquê da adivinhação?
É talvez uma empreitada vã, acima de nossas
forças... Quanto a mim, é mais proveitoso o
estudo sincero das lâminas do Tarot, do que elas nos
contam... O que o monge dizia (a mim, é claro) é
talvez que o Real nos é mostrado quando estamos mais
calmos, em paz, quando não procuramos... Um pouco como
a idéia de Graça no cristianismo.
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O uso disseminado do baralho Rider-Waite é uma característica
cultural e histórica dos países de língua
inglesa, pois alhures o mais comum foi por muito tempo o uso
de variações populares do baralho de Marselha.
Percebo alguns problemas ao se sobrepor atribuições
posteriores às cartas, atribuições advindas
de outros sistemas simbólicos tais como a Cabala (cristianizada)
ou os sistemas mágico-iniciáticos dos séculos
XIX e XX.
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O tarot funciona independentemente do operador: mesmo lendo
numa revista, se
você seguir as regras, ele te responderá. O que
muda é que um tarólogo saberá os
detalhes, as nuances, os silêncios do baralho...
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Com relação ao tarot, de fato a autoconsulta
é desaconselhada por uma pletora de motivos. Além
do fator sugestionabilidade ou da distorção
involuntária, existe um fato curioso: o tarot enrola,
dá respostas confusas para quem está se autoconsultando.
Não me pergunte porquê... mystère...
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Cript-Kabbale, em seu belo e inteligente site ABC
du Tarot de Marseille, mostra como a linguagem dos
pássaros, inicialmente redescoberta por Grasset
d'Orcet e divulgada através dos livros de Fulcanelli,
foi amplamente usada nas lâminas do Tarot de Marselha
(lame, lâmina, em cabala fonética lâme,
alma). Essa cabala consiste em usar o som similar de palavras
diferentes para criptografar mensagens esotéricas.
Essa cabala fonética foi muito utilizada no esoterismo
ocidental e no esoterismo do Oriente-Próximo islâmico.
Cript-Kabbale
fez uma brilhante análise cabalística da tradicional
canção francesa Mon ami Pierrot. No nosso
caso, Pierrot entende-se por Pie erre haut, ou 'a Pulpa
(ou Pêga) vagueia no Alto'... Indago-me sobre a relação
dessa canção com o texto sufi de Ferid ud-Din
Attar, A linguagem dos pássaros, escrito em
persa... É uma época próxima à
do Tarot e à da canção, geograficamente
não tão distante, e é também sobre
a pulpa (em francês, pie), que é a personagem
central do texto e é muito importante na linguagem
dos pássaros (ou cabala fonética). A relação
ou mesmo a profunda filiação entre o hermetismo
medieval europeu e o esoterismo muçulmano (e a alquimia
muçulmana, é claro) é flagrante.
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Com relação à antigüidade do tarot
como sistema fechado e estruturado como o conhecemos, acho
que seja provavelmente imediatamente pós-medieval,
de conteúdo iniciático/hermético/alquímico/astrológico,
mas o elo foi sem dúvida perdido, a transmissão
e principalmente a intenção dos arcanos maiores
foi perdido, e para quem era destinado. Essa intenção
talvez possa ser recuperada através de uma gnose particular,
individual. Ele parece ser um instrumento mnemotécnico,
uma Arte da Memória no sentido usado por Frances Yates.
Os arcanos menores parecem-me uma adição, de
origem árabe talvez e com simbologia diversa, além
de serem mais evidentemente lúdicos. Mas parece que
não saberemos nunca esses detalhes ao certo, e talvez
isso foi feito deliberadamente... O tarot é antes arquetípico
não no sentido junguiano mas no sentido platônico
e plotínico, conteúdo da alma do mundo. É
necessária uma anamnese da intenção perdida
dos arcanos, de seu nome, de sua ordem, de sua numeração,
de seus anagramas...
Tarot
de la Réa, de Alain Bocher
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Uma
visão crítica é fundamental... Temos
dificuldade em juntar duas partes distintas em nós:
nosso uso de uma linguagem comum e nossa vivência interior,
e acabamos fazendo o que Kant chamava de amfibologia na Crítica
da Razão Pura, isto é, transposição
de problemas próprios a um domínio para assuntos
diferentes.
Nossa vivência (que é espiritual e, ao mesmo
tempo, cotidiana) e nossa prática do tarot são
completamente outras de nosso estudo sobre o mesmo. Praticamos
por exemplo zen-budismo, e nossa visão real, vivencial,
é nesse sentido, um pensar, não pensar, ir além
do pensar e não pensar, apenas sentar (zazen).
Nossa prática mântica, por sua vez, decorre naturalmente
dessa vivência do fluxo, do Tao... Nosso estudo do tarot
deveria ser também assim, uma contemplação
hermenêutica de cada lâmina, de cada jogada, do
desenho tradicional, das letras, da seqüência,
de uma ordem obscura, difusa, presente/ausente, do que é
numinoso nos arcanos, do que eles evocam... Devemos praticar
esse exercício hermenêutico cortando radicalmente
qualquer associação com outros sistemas simbólicos
tais como cabala e astrologia.
Quando traduzimos essa vivência profunda e meditativa
(que é serena e originária) numa linguagem comum,
ocultista, ocidental, nossos alarmes soam, percebemos claramente
o horror que é o barroquismo metafísico dos
ocultistas, essa complicação excessiva, esse
onanismo mental que é o pseudo-esoterismo em geral.
Tentar traduzir nossa vivência e percepções
com discursos analíticos não é uma boa
idéia, devemos evitar essa armadilha. Talvez a única
forma de comunicação para esses assuntos seja
o gesto e a linguagem poética, evocativa...
Uma linguagem que aponte para a experiência direta,
e nada mais.
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Tarot é silêncio, noite, vento, cheiro de grama,
grilos, o fluxo, a constante mudança e impermanência
do mundo, a profunda falta de Ser, a ausência de Ser,
o puro Devir, não há deus algum, talvez deuses
igualmente efêmeros, devir, devir, samsara, nirvana,
e um é o outro, claro, só nos resta polir o
espelho, poli, polir, todo santo dia, todo dia é santo
realmente...
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É claro que existe uma forte ligação
entre o Tarot adivinhatório e o Tarot iniciático,
ela consiste na partilha mais ou menos profunda dos sentidos
de cada lâmina, mas talvez isso seja tudo, o Tarot iniciático
começando onde termina o Tarot adivinhatório,
o primeiro sendo incomensuravelmente mais rico que o segundo.
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Os baixos-relevos alquímicos são em média
um século mais velhos que os primeiros jogos de Tarot
registrados. Esses baixos-relevos são conspicuamente
uma Ars Memoria na melhor tradição clássica
de Cícero e Quintiliano, destinada a um pequeno grupo
de iniciados e postulantes. Ora, há historiadores profanos
que afirmam serem os primeiros jogos de Tarot um sistema pedagógico
feito para a vasta massa de iletrados da Europa medieval,
um sistema cujo intento seria a socialização
dessa camada social através de cartas que representariam
os vários estamentos da sociedade. Isso poderia se
aplicar por exemplo aos arcanos (na época naïbes
e depois triunfos/trunfos) II, III, IV, mas não se
aplica à maioria das cartas de modo algum. As imagens
do Tarot são tipicamente fortes, dramáticas,
com um detalhamento bastante complexo, e nada óbvias
como seria de se esperar se a intenção fosse
uma simples socialização.
É
mais provável que o Tarot foi em sua origem mais um
Mutus Liber hermético, assim como o foram desde
um século antes dele os baixos-relevos. Prescindir
da palavra escrita é nessa época um recurso
da Tradição, e não uma condescendência
pedagógica.
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Classificações
errôneas e obstrusivas. É um grande erro separar
o uso mântico do Tarot de seu uso "iniciático"
ou esotérico. O Tarot é uma linguagem
pictórica e nisso reside sua essência e função.
Ao aprendermos essa linguagem comunicamo-nos mais eficazmente
com nosso daimon, também designado por Inconsciente
ou Eu Superior. Através do Tarot nosso daimon
nos ensinará gradual e topicamente a verdadeira sabedoria
"esotérica", nossa inata sabedoria profunda.
A iniciação a essa sabedoria se dá portanto
com a prática adivinhatória do Tarot,
e não com o estudo de obras que nada mais fazem que
projetar ou atribuir suas noções
"esotéricas" ao nosso pobre baralho.
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Novo
P : Ler o Tarot não pressupõe uma visão de mundo fatalista ?
R : Não. O Tarot é o lado (relativamente) passivo cujo complemento pró-ativo é a Magia. Ambos são os dois lados de uma mesma moeda, de um mesmo fenômeno, de uma mesma atividade ou tecnologia, de um mesmo métier, de um mesmo fazer.
Através do Tarot perscrutamos os futuros possíveis e mais prováveis pela lei da inércia ou do mínimo esforço : “se as coisas seguirem o presente rumo sem oposição ou esforço contrário, o futuro possível mais provável é este que vislumbramos aqui”.
Todavia, a utilidade da mancia entra justamente nesse momento. Analogamente às descobertas da Física, só o fato de alguém de algum modo espiar os futuros possíveis já altera a configuração probabilística dos mesmos : o observador afeta ativamente o observado.
Além disso, de nada adiantaria saber nosso futuro se este fosse inexorável, seria em muitos casos algo masoquista. Se perscrutamos o futuro, o fazemos para decidir se é o caso ou não de intervirmos magicamente e praticamente, afim de alterar os cenários mais prováveis inercialmente. E é então neste momento que entra a Magia. Como disse Crowley, toda ação intencional é mágica, tanto uma ação prosaica como escrever uma carta e colocá-la no Correio quanto um elaborado ritual de Magia Cerimonial...
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